ENDEREÇAMENTOS 

 

1

 

então decidimos, eu e você, entrar onde nós já estávamos. meio reservas, assim, meio de lado. você bem sabe o que significa para nós dois, como nos sentimos felizes em pressionar a ponta de nossos dedos sobre esta superfície. você também sabe que só consigo nisto que te endereço, com periodicidade relativa. é uma aventura. nunca saberemos se chegarão aos ouvidos, que serão seus olhos, da maneira que minhas mãos as desenham. essas incertezas me causam alguma vertigem. nada sério. não se preocupe. estimulam meus sentidos. mas não sei como, muito menos se, chegarão ao objetivo a que são destinadas, não posso te garantir nada, nem enviá-las sempre da mesma maneira. pode ocorrer de ser via intercessores. você terá, assim, que aprender a ser outro, ao menos temporariamente. quem? não sei. não sabemos. comigo, não sei quem sou nem para quem o sou propriamente. o motivo já se tornou contingente. agora mesmo. admito que foi menos outrora. mas o próprio formato demanda isso hoje de nós. já te falei em voz alta da minha mania de mexer os dedos enquanto ouço falarem ou enquanto penso sozinho? estranha  c o r e o G R A F I A  no ar, em que visto o que ouço, secretariando o outro, e em que penso somente para fazê-lo em falso. mas isso faço sempre em falso. formatamos, eu e você, uma memória que não nos pertence – será mesmo que não? você sabe. você sabe. e nada fica de um pensamento situável além desse movimento das mãos e dos dedos. por isso, se eu te enviar algo que saiba a CIFRA, não é por desejo de obscuridade. por exemplo, agora, quando te escrevo que escrevo, e escrevo como escrevo, não deixo de pensar no quanto isso é uma usurpação dos nossos destinos, o que nos arremessa na tragédia e faz de nós neste exato instante cordões do acaso.

 

2

 

uma forma de  s i l ê n c i o. fascinar-se por esse exercício de concentração da beleza. não dizer NADA. não ser NADA. só uma linha em movimento a atravessar o olhar e prosseguir. maravilha invisível e flutuante. pílulas de uso regrado e intensivo. não há receituário. daí o perigo e o privilégio. está TUDO em suas mãos quando se trata disso. só incapazes não entendem o ato de criar silêncios. só os surdos querem entender o que diz aí. a beleza em não dizer NADA sem parar de muito dizer. como quando se mede o espaço matematicamente para dar vida a corpos e sonhos. silêncio e enunciado. atavismo mágico e esTUDO técnico. mas os tutelados teimam em querer tomá-lo entre os dedos como prosa venal. mas exige-se disponibilidade. humildade. força. parcimônia. a  v e l o c i d a d e é outra. decidi não mais dirigir, e TUDO me é absolutamente plano diante dos olhos. ando à pé e de ônibus. vejo o horizonte em CADA LINHA. o  p a r a d o x o  d o  a n o n i m a t o, da ausência de interlocutores que realizem instantâneos descartáveis e ASSINATURAS.

  

 

3

 

mudo. não por iniciativa própria, o que me causa estranheza. você me propôs, pelo modo como falou, que te apresentasse outras possibilidades, novas perspectivas, uma outra forma de diverso. admito que EU estava interessado nas poucas mudanças que havia decidido tomar inicialmente, mas sua fala me levou a pensar (logo de cara, provocou um certo atordoamento, depois parece que encontrei alguns trilhos e as idéias passaram a deslizar com alguma leveza), a pensar, repito, naquilo que estava oculto sob mEUs dedos, temeroso de explicar, temeroso de lhe escrever. ainda estou, é verdade, mas já percorro com um pouco menos de angústia, poderia dizer um pouco menos delirante, as estradas esburacadas que asfalto entre EU e você. que asfalto para mim e para você. que asfalto. tão somente asfalto. ontem, por exemplo, tomei a estrada e encontrei amigos, vidas diferentes, escritas diferentes, mas igualmente dispostos para a conversa, abertos ao que agrega, ao que reúne corpos. espírito de corpo, você me diz. é, posso lhe dizer que sim. isso. assim. voltei para casa, o espírito não se desfez, não se apagou, e já não permaneci o mesmo. nenhum de nós permanecEU. escrever nos dEU, nos dá essa oportunidade de trocarmos de pele, experimentarmos novas vidas. nenhuma pretensão, nenhuma motivação, nenhuma ilusão, além da realidade da escrita. vidas. daí que você falou e me levou – mesmo sem querer exatamente isso – a pensar diferente. afinal, não é por isso que falamos? para nos transformarmos? nos precisarmos? nos? daí que você me falou. mudo.

SANDRO ORNELLAS

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Sandro Ornellas publicou 3 livros de poemas, sendo o último “Formas de cair” (RJ, Letra Capital, 2011), e um de ensaios, “Linhas escritas, corpos sujeitos” (SP, LiberArs, 2015).

Os livros de Sandro Ornellas estão disponíveis na livraria Boto-cor-de-rosa!

Sobre Textos fora do mapa: Aqui publicamos poemas, ficções, resenhas e crônicas inéditos de escritores brasileiros e não brasileiros, que muito generosamente escolheram compartilhar aqui. Tudo que você encontrar nesta seção aparece aqui pela primeira vez. Textos fora do mapa, assim como todas as seções deste site, inclui textos em diferentes línguas conhecidos ou em nenhum idioma previamente conhecido.