QUERIDO DIÁRIO DE INTELIGÊNCIA,

Belo jantar. PERDAS queridas e DANOS
de carne magra do tipo COLATERAL.
Ampliei a minha CARTA DE OFERTA E ACEITAÇÃO
para o PÚBLICO INTERNO DESEJADO, atingindo
EFEITO DESEJADO e PERCEPÇÃO DESEJADA….
uma FASE DE PLANEJAMENTO longa e essencial,
Até o mapa de lugares marcados da nossa festinha onde posicionei
Perfeitamente os cavalheiros para evitar um AMBIENTE HOSTIL…
mostrei GRANDE CONSTRANGIMENTO….QUESTÕES CIVIS.
Uma verdadeira CENSURA CIVIL. Mesmo quando ele deixou cair aquela ARMA
MEGATON em mim, recatadamente, prometi:
espere até provar o GOLPE DE MÃO!
Ele ficou! E pensar que há noites atrás eu desejava
DESENGAJAMENTO. Depois de hoje, seguindo à letra,
Fiz como sugeria a minha mãe: IDENTIFICAÇÃO, AMIGO OU INIMIGO.
Acabou sendo AMIGO…
(Se você achou esta mensagem, por favor, pare de ler agora.)
Foi AMIGÁVEL embaixo da TRELIÇA da tenda gazebo….UMA OPERAÇÃO DE BAIXA
VISIBILIDADE, que foi o que o meu RADAR SOBRE-O-
HORIZONTE me dizia. A INTERPRETABILIDADE de…
bem, AVALIAÇÃO INICIAL, realmente….apenas INFORMAÇÕES MARGINAIS,
sei, prometo mais depois. Mas, mesmo assim
um verdadeiro muito importante PONTO SEM RETORNO…
Fui lá fora para AVALIAR esta ÁREA
DE INFLUÊNCIA, para admirar juntos a ARQUITETURA,
compartilhar uma APRECIAÇÃO DESEJADA da nossa
                                                                                            TERRA
NATAL que (dedos cruzados!) construiremos juntos…

 

***

 

EFEITOS PESSOAIS
 
 

 Assim como armas e carros, as câmaras
são máquinas de fantasias cujo uso vicia.

Susan Sontag

 

Coloco uma fotografia do meu tio na tela do meu computador, o que significa que aprendo a ignorá-la. Ele está em pé ao lado de um tanque, capacete inclinado para a sua direita, cadarços das botas apertados como se estivessem costurando uma ferida. Viva, a mão traz um cigarro o qual não veremos ele saborear. Ontem de noite também fumei um nos degraus no lado de fora do meu apartamento-celeiro. Uma promessa que quebrei para mim mesma. Ele prometeu para si que não faria, e fez. Cheiro os meus dedos e estou cheirando os dedos dele. Mãos de fumaça e pólvora. Mãos que prometeram que não fariam, mas fizeram.

 
 
SOLMAZ SHARIF
(do livro “Look” – Graywolf Press, 2016)
tradução de Sarah Rebecca Kersley e Milena Britto


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Solmaz Sharif é uma poeta de ascendência iraniana. O seu trabalho ganhou o Premio de escritores do Rona Jaffe Foundation e bolsas do National Endowment for the Arts e o Poetry Foundation. Seus poemas foram publicados em revistas como Granta, New Republic e Poetry. Leciona na Universidade de Stanford. Look (USA: Graywolf Press, 2016) é o seu primeiro livro.

Nota sobre os poemas do livro LOOK:

Os termos escritos em letras maiúsculas vêm do Dictionary of military and associated terms (Dicionário de termos militares e associados) do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. O livro abre com a definição do termo usado para o título:

look_(*): Em campanhas de guerra em que minas são utilizadas, o termo se refere ao período em que um circuito de minas é receptivo a uma influência. – (Dicionário de termos militares e associados – Departamento de Defesa dos Estados Unidos).

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Leia mais sobre o livro:

Entrevista com Solmaz Sharif em The Paris Review: The role of the poet – an interview with Solmaz Sharif

Resenha de Eve F.W. Linn no The Critical Flame: “The Lyric Self is the Political Weapon”: Solmaz Sharif’s Look

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Traduções para o português dos poemas “Dear Intelligence Journal” e “Personal Effects” do livro “Look” copyright (c) de Solmaz Sharif. Traduzidos por Sarah Rebecca Kersley e Milena Britto e publicados com a permissão de Graywolf Press, Minneapolis, Minnesota, USA. www.graywolfpress.org

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Fonte da foto: https://www.theparisreview.org/blog/2016/07/27/the-role-of-the-poet-an-interview-with-solmaz-sharif/