Imagem: Oswaldo Guayasamín

O sertão e a morte na paisagem de “Céus e terra”, de Franklin Carvalho

Milena Britto

“Quando eu tinha doze anos, fui ajudar a tirar um homem da cruz. Encontrei-o morto e acabei morrendo também”.

Foi assim que eu conheci Galego: já morto me contando de sua vida, ou melhor, de sua morte. Poucas vezes uma personagem da ficção recente tem ficado comigo tanto tempo após terminada a leitura da obra. Já nas primeiras páginas de Céus e Terra percebi que com Galego, o narrador morto que consegue nos abalar tão profundamente, seria diferente, como havia sido com Pedro Páramo, de Juan Rulfo, que até hoje ronda as minhas paisagens de espaços desapegados de nitidez.

Galego é decapitado acidentalmente, quando iria intervir no salvamento de um cigano crucificado, e este fato por si só já desestabiliza a relação moral, trágica e ritualística que envolve a morte de um sujeito. A ironia se une a um humor leve, elegante e ao mesmo tempo capaz de exigir uma reflexão do leitor, menos sobre a morte e mais sobre a vida que se relaciona com o fim da existência em perspectivas religiosas, místicas, científicas, espirituais, culturais. Galego, menino órfão que é explorado pelos padrinhos, encanta o leitor com sua tranquilidade em localizar a sua pouca importância no mundo dos vivos:

“Padrinho José de Arimateia comprou um caixão para o homem e outro para mim, e foi somente por esta pompa, porque enterrariam o Crucificado na cidade, no cemitério, que resolveram fazer da mesma forma comigo. Senão, sepultariam o meu corpo na roça mesmo, onde havia tombado em combate”.

Os rituais funerais envolvem mitos sobre o lugar para onde a alma irá e a garantia de um enterro digno ao morto é também garantia da própria salvação dos vivos. O comportamento dos homens, das mulheres, do padre, do coveiro e do próprio “morto” em torno do enterro, fez-me lembrar de A morte é uma festa, livro no qual João José Reis traz a morte em sua força político-social, ao investigar as transições do ritual do enterro das Igrejas para o cemitério, bem como a revolta popular ao ver a fé e a possibilidade de uma vida espiritual ameaçadas por novos empreendimentos e comportamentos relacionados à morte. Em Céus e terra, os rituais fúnebres, ainda que revelem as relações afetivas e subjetivas relacionadas à perda, parecem estar presentes muito mais para ressaltarem as situações sociais, as crenças e a “economia” em torno do enterro.

O que Galego conta-nos em algumas passagens, observando os seus parentes e amigos diante de seu corpo morto, é, de certa forma, muito mais triste do que se contasse como era viver sendo explorado, pois aguça, justamente porque narrado com ironia, a necessidade hipócrita de exagero da dor por parte das pessoas próximas enquanto pensam, por exemplo, no custo do caixão.

Na narrativa, Franklin Carvalho encontra não apenas a linguagem precisa para Galego nos contar de sua morte e de outras duas mortes que o romance traz –sim, é um romance sobre a morte, mas não só– mas também nos oferece uma fartura de elementos para reingressarmos no sertão como paisagem geográfica e paisagem humana, estas dadas muito mais pelas histórias dos sujeitos aos quais o “fantasma” de Galego se cola do que por descrições estigmatizadas.

“Outro detalhe, para não faltar com a verdade, é o meu novo recurso para matar a sede. Muitas vezes tentei esticar o braço no rio para colher a água fresca, mas nada retirei de lá. Ainda demorei um bom pedaço de tempo sem solução, agitado como se faltasse ar, até que vi um vaqueiro bebendo a água de um cantil e pulei na garganta. Descobri então este pormenor: que só posso bebê-la pela garganta dos outros.

Desde aquela hora, quando mato a sede, é sempre um momento de encarnação, e apenas pela garganta estou em contato com os vivos. Eu sem querer cachaça nem outra coisa dessas que falam que as obsessões pedem –morreria de sede não me unisse à sede alheia. A pipoca, como-a sozinho, a água, como já falei. No resto, sou o que sou, o que sobrou de Galego, menino de camisa rota, com botões faltando, caboclinho dos lábios grossos e nariz achatado, dos cabelos amarelos queimados pelo sol.”

As personagens do romance são uma mistura de heróis desajeitados com sujeitos esquecidos por uma história de velocidade e urbanidade, e se mostram capazes de atiçar a volta a um lugar de fantasia e de convivência com aquilo que seria uma ideia de latinoamericanidade.

Há, de fato, algum vestígio de realismo mágico e referências a uma tradição literária latinoamericana, brasileira, sertaneja. A própria Araci, povoado do sertão que abriga a narrativa, remete-nos à Macondo de Gabriel García Marquez e, ao mesmo tempo, reclama a vida deste lugar que é o sertão pouco conhecido de uma Bahia também pouco visitada literariamente nas produções de agora.

Não apenas sentimos a presença das narrativas épicas-trágicas-cômicas dos córdeis, mas também nos deparamos com Graciliano Ramos em referências diretas, como as personagens que, mesmo que tenham seus nomes marcados no romance, são referidas pelo narrador como “o menino mais velho” e “o menino mais novo”, dois irmãos por quem Galego vai ficar obcecado por anos, e que nos remetem a Vidas secas.

“O menino mais novo começou a ter cada vez mais dentro de si a vontade de se aventurar no mato, até perder-se na caatinga, como acontecia naquele tempo com outros garotos da cidade. Alguns daqueles pequenos reapareciam, e contavam histórias maravilhosas de uma mulher que os alimentara, ou de famílias que os receberam, e o povo, não podendo localizar os benfeitores, nem casa nenhuma dentro da caatinga, creditava todas as graças a Nossa Senhora e às almas que se escondiam nos emaranhados do mato seco”

Franklin Carvalho não tenta pegar o leitor pela sua identificação imediata com mitos ou uma mística sertaneja fácil. A poética que nos é oferecida por ele é peculiar em sua vontade de desterritorializar a própria morte em torno da qual o romance circula. Em certos momentos, a narrativa eleva-se à trama e o espaço da linguagem passa a representar mais enfaticamente a corporeidade da narrativa do que a própria geografia de Araci. O autor parece propor-se a investigar e a escutar as muitas linguagens que sustentam e caracterizam a paisagem sertaneja, mas não apenas em sua geografia física. É como se o espaço, tanto da morte quanto da vida, no romance, não fosse apenas o povoado onde tudo se passa. A captação desse espaço verbal começa a debilitar o sentido físico de Araci à medida que as vozes, as ideias, as observações das personagens eliminam a necessidade de localização, é puramente linguagem. Isso corroboraria com o pensamento de Julio Ortega que diz que “perceber o espaço é perceber seus rumores, seus movimentos, sua vida; reconhecê-lo impregnado de temporalidade, de latências que acaso estão sendo ocorrências em outra parte”.

A percepção progressiva de espaço faz com que o leitor se desprenda da ideia de um espaço sinônimo de paisagem natural ou geográfico e reconheça que o romance está engendrando um espaço mítico onde a imagem poética domina para revelar “o outro mundo”.

“– Isso aqui é só um sonho, Galego, o seu sonho, com a fartura que você nunca viu na vida. João não está aqui, nem ninguém está aqui. E se for reparar, do jeito que o tempo passa ligeiro, ninguém está em lugar nenhum, nem em sonho, nem em vida.

Logo que falou isso, Ramiro me abandonou, como se estivesse cansado de ser professor, e todas as coisas foram desaparecendo. Acordei assustado, de volta ao quarto dos meninos de Judas, e recordei-me de João como se eu estivesse na sua pele tatuada, aproveitando a alegria, embriagado e valente, totalmente avesso. Eu sentia o suor saindo do seu corpo, rolando por seus pelos, e a boca de João dizendo absurdos, livre, desatada”.

Além de Galego, outras personagens são maravilhosas e reveladoras, como Abel, um jovem que, no romance, acaba representando o garoto rebelde e sonhador que sabe que há um mundo inteiro fora do povoado que apreende os seus dias de adolescente.

Também as mulheres chamam a atenção do leitor. Elas são, no romance, uma espécie de força organizada a partir do feminino que não apenas garante a coerência entre economia e perdas, mas, sobretudo, reaviva a solidariedade humana através da sororidade que, mais do que uma ação guiada por princípios morais, é uma ação política que sempre houve e sempre haverá em torno da sobrevivência coletiva das mulheres. Não é à toa que Dona Amélia, uma personagem instigante no romance, ao se tornar viúva, reencontra o sentido da sua vida na permanente atenção que oferece às viúvas, às moribundas e às velhas que parecem destinadas ao esquecimento lento por parte dos que possuem força para labutar no cotidiano.

A morte está tão perto de nossa memória, como seres humanos e como leitores, que chega a ser surpreendente que finjamos não nos lembrar dela no nosso dia-a-dia de vivos. Machado de Assis, Carlos Fuentes, Juan Rulfo, Gabriel García Marquez, Shakespeare, tantos são os autores que nos forneceram palavras e palavras para que a morte possa ser dita nas conversas sociais, das banais às profundas, que pensaríamos já não nos surpreender. Não é assim, cheguei à conclusão ao ler Céus e terra.

O romance de Franklin Carvalho é desses que nos dá prazer porque tenta de maneira única revisitar as nossas relações básicas de existência, como os rituais em torno da perda, a vontade de trazer a morte como esse grande espelho da vida. O romance não é uma obra maniqueísta ou pautada nos estereótipos já erguidos em torno da religiosidade do sertanejo, como também não é um presunçoso investimento do autor em construir um romance que represente alguma ideia grandiosa sobre esta geografia, estas personagens do lado de cá. É uma narrativa até simples (em se tratando de um romance que fala da geografia já revisitada tantas vezes e suscitadora de grandes memórias literárias), mas, com uma sincera vontade de trazer as linguagens da infância sertaneja como ponto de observação sobre um mundo que ainda rende muito mistério. Pude conviver bem, durante a leitura, com a curiosidade do autor em torno da morte cotidiana para entender os vivos. O seu interesse pela física e a filosofia se percebe em vários momentos da obra, em descrições que confrontam as ideias e dogmas religiosos que explicariam a passagem da terra para outro lugar. Ao mesmo tempo, percebo seu gosto pelas tradições que povoam o universo sertanejo. Ao termos as misturas propostas por ele na linguagem-matéria do narrador, a morte passa para um lugar metafórico e o leitor, com muita surpresa e uma certa alegria, termina a leitura observando a morte do mundo a sua volta como algo muito mais assustador do que a passagem para a outra vida que nos espera a todos.

Termino com duas passagens literárias, uma de Shakespeare, outra de Franklin Carvalho, para que seja a literatura a nos dizer alguma coisa sobre o fim de tudo, sobre o fim da vida:

“O amanhã, o amanhã, o amanhã, avança em passos mesquinhos, dia a dia até a última sílaba do tempo que se recorda, e todos os nossos ontens iluminaram para os loucos o caminho da poeira da morte. Apaga-te, apaga-te, vela fugaz! A vida nada mais é do que uma sombra que passa, um pobre louco que se pavoneia e se agita por uma hora no palco em cena e, depois, nada mais se ouve.” (Macbeth – Ato Quinto. Cena V. William Shakespeare)

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“Vejo todos os perigos que corri e rezo para ser salvo de cada um deles. Depois, sento no banco feito de varas, de galhos secos, coberto de palha e panos rotos, nos fundos do casebre onde meus parentes moravam. Fico ali por um bom tempo, olhando a minha mãe cozinhar seus poucos guisados. O fogo fraco, embaçado pelo vento, e ela de cócoras, com os pensamentos distantes. Vejo as suas tardes fugirem, a noite caindo às suas costas. Quando estou naquele momento, sou o menino Galego de olhos grandes. Nas outras horas, sou como uma estrela extinta, já sem nenhuma matéria para queimar, e mergulho ainda mais em mim mesmo, fechado num silêncio pleno, e nem a luz escapa dessa singularidade”. (Céus e terra. Franklin Carvalho)

Céus e terra / Franklin Carvalho: Editora Record 2016. 208 páginas.- 

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Milena Britto é doutora em Literatura Brasileira, Professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia. Atualmente coordena junto com a professora Nancy Vieira o projeto de pesquisa LITERATURA, POLÍTICA CULTURAL E MERCADO EDITORIAL: QUAIS LITERATURAS (RE)CONHECEMOS?, desenvolvido no Instituto de Letras da Ufba.

Imagem: Oswaldo Guayasamín.
Fonte: http://img.europapress.es/fotoweb/fotonoticia_20160312115943-887699_600.jpg

Tradução da citação de MacbethF. Carlos de Medeiros e Oscar Mendes.
em William Shakespeare – Obra Completa, vol. I, Tragédias, editora José Aguilar, 1969.