Imagem: Conspire edicões

Miudezas de Sarah

Francisco Antônio Zorzo

“Naqueles dias de junho, nada foi mais contagiante do que os sorrisos do pessoal da feira começando a vender o milho.”

Esta fórmula dá corpo a um conjunto de relatos poéticos da professora e poeta Sarah Carneiro. A coleta dos textos foi feita com base em um calendário de eventos retirados do dia-a-dia da cidade em que ela reside, atualmente, Cruz das Almas.

Vale a pena encarar essa página que está acompanhada de uma foto de Luciano Fogaça, seu marido. Ao lado direito do texto temos a imagem, um vendedor ambulante que separa cebolas de tomates frescos, trabalhando com o olhar sério. Pode-se ver na foto o processo de registro da cena, ou seja, o cotidiano interiorano sendo invadido pelo carinhoso olhar dos artistas.

Desentranhar poesia do cotidiano é tarefa poética infinita e invencível, sempre desafiadora. Para a autora do livro, não se trata obviamente de ilustrar o ambiente popular com tiradas descritivas ou analíticas. É, acima de tudo, um modo de participar e recuperar vivências. Ela admite em entrevista que, em Cruz das Almas, reencontrou os lampejos que tingiram de luz a sua infância passada naquela cultura regional.

A borda central do Recôncavo já rendeu lindos prêmios artísticos, poéticos e musicais para o Brasil contemporâneo. Um exemplo simples e reconhecido é o samba das labutas de trabalho do grupo Quixabeira, que transpiram incentivo coletivo e calor humano . Portanto o convívio com as pessoas desses lugares, como ocorre no município de Cruz das Almas, pode trazer uma variedade de detalhes e objetos de interesse para um olhar curioso e implicado em sua sobrevivência cultural.

Como afirma Sarah Carneiro, ela reuniu os textos para ir além da complicação das atividades correntes, sua escrita pretende ir além de revelar valores de um cotidiano, para tentar revelar “quem somos, e fazermos ver o que sentimos.”

Como se percebe a cada página, a implicação do sujeito no contexto cultural é um ponto forte do livro. Há uma legitima vontade de salvar histórias de vida. A autora deu depoimento, confirmando que essa vontade está “ligada ao salvamento, nos contextos onde está inserida, do olhar obtuso que impera em relação a eles”. Ela faz um “movimento no sentido de evidenciar, nos espaços onde transita, um olhar sensível para a vida, contrapondo-se a um olhar negativo e pessimista”.

Como se sabe, esse empenho é sempre perigoso, esteticamente falando, no sentido poder de vacilar e recair em simples tomadas de posição e em resgates de temas banais. Felizmente, esse perigo foi contornado com astúcia feminina pela autora. Se voltarmos à epígrafe que formula bem o andamento do livro, a interação com a cidade é delicada e generosa, com troca de sorrisos em pleno espaço público.

As cenas retratadas no livro mostram prazer e gratidão, de modo que essa interação gera importantes reflexões. A explícita visada carregada de carinho deixa ver o outro como ser dinâmico e criativo, que não está afogado pelas neuroses e tensões urbanas. Tal olhar mostra uma “sensibilidade utópica”. As micro-epifanias das ruas e feiras são explicitadas, ganham espaço e oportunidade, enaltecendo um “modo de estar no mundo”. Longe da correria frenética das metrópoles, a cronista parece conseguir respirar o pólen da vida.

Francisco Antônio Zorzo

Miudezas de uma cidade do interior – escritos sobre Cruz das Almas / Sarah Roberta Carneiro
com fotos de Luciano Fogaça: Conspire edições, Julho 2017. 71 páginas.

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Francisco Antônio Zorzo é professor e coordenador do BI em Humanidades Diurno no IHAC, Universidade Federal da Bahia.